sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Disseram que eu voltei americanizada*

* Não, eu não voltei para o Brazil! :D

Carmen
maravilhosa-diva-quero-wanna be-forever-poderosa


ai que música delicinha! 


E disseram que eu voltei americanizada
Com o "burro" do dinheiro, que estou muito rica
Que não suporto mais o breque de um pandeiro
E fico arrepiada ouvindo uma cuíca

Disseram que com as mãos estou preocupada
E corre por aí que houve um certo zum-zum
Que já não tenho molho, ritmo, nem nada
E dos balangandãs já nem existe mais nenhum

Mas pra cima de mim, pra que tanto veneno?
Eu posso lá ficar americanizada?
Eu que nasci com samba e vivo no sereno
Topando a noite inteira a velha batucada

Nas rodas de malandro, minhas preferidas
Eu digo é mesmo "eu te amo" e nunca "I love you"
Enquanto houver Brasil... na hora das comidas
Eu sou do camarão ensopadinho com chuchu!

Brincando com identidades ao infinito e além! 
haahahhaahha

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Los dulces clandestinos

- Vocês já sentiram aquele cheirinho de bolo no caminho da pink line?
- Já, é pra disfarçar o preparo da metanfetamina [C10H15N]. Já viu Breaking Bad?  


Jimmy renda-se, ouça alto, essa música é foda.
[Tomzé sendo gênio, em 72 também. rs]

Acordei cedo e esperei o relógio marcar 8:00. Muito bem, na vida real, acordei sabe deus que horas. Comi rápido e saí já meio atrasada, faltavam 8 minutos para o 60 blue island passar. Decidi que não contaria à ninguém que iria ao local do crime, na morada da fumacinha da perdição. 


Segundo informações seguríssimas, o [C10H15N] é muito potente e altamente viciante, causa euforia, aumento do estado de alerta, da auto-estima, do apetite sexual e intensificação de emoções. Exatamente a descrição dos efeitos de um brigadeiro no sangue de seres humanos com o paladar altamente apurado.

Tentei fazer todo o trajeto em menos de oito minutos, mas não foi possível. É muito pano pra colocar no corpinho até sair de casa! Aff!!! 

A arte da bisbilhotagem é algo que merece respeito. Depois de me cobrir com todos as camadas necessárias pra não morrer, segui em direção à portinha branca. Eu tava pronta pro crime: a cada passo que dava, tinha a convicção que naquela casinha eles compartilhavam do mesmo amor delito que o meu, da mesma contravenção, do mesmo ato delinquente,  todas as vezes que passava na frente do alley.  Obstinada e cega de certeza, puxei a porta e entrei esbaforida de emoção em conhecer os tais criminosos, meus semelhantes.

- Hola, hay dulces?
- Sí! ¿qué quieres?
- Todos! :D 

- wait! I don't have cash! : ~

[...]

- No se preocupe, voy a tomar uno de cada uno para usted.

Os doces criminosos são: Marina, Cocada, Dulce de camote, Alfajor, Dulce de tamarindo:





Vou especificar cada uma deles.

O Dulce de Camote é uma espécie de batata rosada que nunca tinha visto. Você as descasca e coloca para ferver na água com açúcar, canela e outras especiarias, vai depender de quem as faz. Ao morder o Camote, percebi que tem uma casquinha caramelizada que contrasta com o a textura macia da batata cozida. A parte interior é adocicada de forma suave, com muitos ingredientes combinadinhos no cozimento, o aroma é incrível. Elas tem tamanhos assimétricos e o conjunto fica disposto como pedras preciosas nas prateleiras. No momento que as observei, as janelas sujas e mal feitas que as conecta com o alley, deixavam entrar uma luz bem bonita sobre elas, foi lindo de ver.

O Alfajor tem como ingredientes principais açúcar, coco e uma pigmentação forte na cabeleira. Um rebelde! Cria uma atmosfera divertida em torno do docinho sabe? Fiquei imaginando em quais ocasiões eram confeccionados... quantas alegrias teriam ocasionado aos olhos atentos para uma bela surpresa desse rapazinho vestido de branco e cabelos rosados, pronto pra brincar. Certamente é o palhacinho da festa.

A Marina... ai, ai, ai... é próxima do doce-de-leite e dissolve na boca assim que você dá uma mordidinha... aprovada com louvor e direito a grito de torcida alucinada! hahahahaha. Além de deliciosa, ela tem carinha de festa também! Por vir toda marcadinha com um desenho espiralado, imaginei que ela tenha sido uma cobrinha antes de ter uma aparência de biscoito. A amêndoa faz a coroação da nossa rainha. Que belezinha! Nem precisava estar tão elegante assim, é uma vontade de beleza que nem sei explicar. <3

A Cocada tem formato de brigadeiro e é bem mais macia das que estou acostumada a comer, essa foi a favorita da Ana. Por sorte e muita agilidade, consegui tirar um pedaço antes que ela devorasse o docinho inteiro. A cocadinha redonda fica durinha por fora, provavelmente é posta pra assar porque a bundinha dela vem meio escurinha e ela tem uma barriga fofinha de quem cresceu com o calor, e um leve dourado na parte de cima. O miolo é macio e foi uma delícia tentar adivinhar o que tinha ali pra deixa-la do jeito que é.

O Dulce de tamarindo merece um tratado só pra ele! Ele é um camaleão na boca! Vem com uma carinha inocente, embrulhadinho no papel celofane e disposto numa colher, como se fosse uma lembrancinha de aniversário de criança. No entanto, suspeitei que tinha acidez e açúcar envolvido desde o princípio. Sua apresentação pessoal me lembrou muito o doce de cupuaçu. Peguei uma faca e tentei arrancar um pedaço pra provar. Eis o relato: Doce, ácido, tamarindo, azedo, ácido, azedo, lágrima nos olhos, vou morrer, adocicou, ardeu, ARDEU, adocicou de novo. fim! Que montanha russa! hahaahahah

Um pregador de peças, esse é o Dulce de Tamarindo. Certeza que minha mãe vai amar!

Segue o elenco quiebra-ley:

Dulce de Camote

Alfajor

Marina

Cocada

Dulce de tamarindo

O café da minha avó Ana, era um dos mais doces do mundo, se alguém a questionasse, ela dizia alto e em bom tom: "de amargo já basta a vida". Eu nunca gostei de café, mas nunca esqueci essas palavras dela. De alguma maneira, ela dizia que o doce é um agradinho na alma, vai bem mais fundo que uma simples prazer nas papilas gustativas.

Em que planeta vivemos, no qual um punhado de cretinos faz com que essas pessoas amáveis, gentis, generosas, com um conhecimento sofisticadíssimo sobre doces, numa relação primorosa com os ingredientes, sejam tratados literalmente como criminosos? Faz parte do plano de manter essa farsa de fronteira e nação?

Não há teoria economicista neo caralho a quatro que fundamente isso! É tão revoltante, baixo, inescrupuloso, inaceitável, injustificável, odioso, asqueroso.

Um aviso aos white collar: água, coco, tamarindo, açúcar, manteiga, galinha, canela, ovos, vaca, leite, batata, macaxeira, babaçu, castanha, açaí, bacaba, buriti, tambaqui, matrinxã, cará roxo, tucupi, camarão, costelinha... isso não vem em saco de cimento, não dá em prédio de concreto, nem em gasoduto, nem hidrelétrica! seus pulhas!

Mastiguem pedra, comam carvão, barro!

É isso que está reservado à vocês seus merdas!


Protesto na State Street, Chicago, 12 de novembro de 2016.


Motivo do protesto: "A construção deste oleoduto de 1.600 km e que atravessa quatro estados está a cargo de uma companhia texana e pretende transportar o petróleo até Illinois, destruindo os mananciais de água de muitas reservas de nativos americanos, além de destruir zonas consideradas sagradas há gerações".

terça-feira, 15 de novembro de 2016

O filho da confeiteira

Confeiteiras são uma espécie de estrelas do rock.

Na verdade, justiça seja feita: a cozinha nunca foi um lugar especial pra mim, até conhecer o filho da confeiteira.

- trouxe?
- não! tu só gostas de mim porque trago bolo pra ti.
- que drama! me dá logo... vai?

Vinha como quadradinho enrolado no papel alumínio. O recheio de baba de moça ficava intacto, fazendo a divisão entre os partes mais fofinhas de leite e chocolate. O grande sofrimento era a cobertura, grudava inteiro no papel e eu tinha que lamber todo pra não deixar nenhuma castanha ou creminho pra trás.

Ele tinha nojo de tudo. Enquanto eu me esbaldava no R.U. comendo barata frita e chinelão transgênico feito de resto de bicho, ele tinha ânsia de vômito com qualquer nervinho que aparecia no picadinho de "carne". Cansou de ter ódio todas as vezes que eu dizia que ia comer no R.U. pra economizar. Bufando, pegava um prato e se servia de batata cozida e farinha: só.  Era só o que o príncipe conseguiria comer. Eu me espocava de rir, óbvio.

- Diz aí uma comida que tu não gosta.
- Nada, eu gosto de tudo, como tudo. Até pedra temperada.
- Duvido.
- Tá, talvez pimentão... credo, pimentão!
- Tu precisa experimentar o pimentão recheado da minha mãe.
- Hoje?
- :P

E foi aí que eu conheci a cozinha da Artemis. A cozinha era toda revestida de cerâmica branca. Da casa inteira, era nítido que tinha sido o único cômodo reformado. Havia várias prateleiras encostadas na parede contrária à geladeira, fogão e armário, com uns 20 bolos de castanha com baba de moça, e uns cinco de chocolate.

Entrei.

A cozinha estava quentinha do forno ligado e o cheiro, que eu já sentia lá de fora, era de desmaiar de tão bom. Me senti um cachorro no galinheiro.

Eu quase morri quando descobri que não poderia comer nenhum. Estavam todos encomendados. Tinham hora e data marcada pra fazer a felicidade alheia. No centro da mesa, havia  um copo de liquidificador e um prato de carne assada, coberto com plástico filme. Mais no canto, vi um caderninho todo rabiscado com espiral de arame e uma bic enroscada nele, era lá que faziam as anotações dos pedidos.

A mesa era de madeira, meio improvisada, e junto das outras coisas, ficava um bacia cheinha de castanha picada.  Imaginei que tinham sido torradas com um pouco de açúcar, era a cobertura das belezinhas. Pensei: os bolos são bonitos porque são roots. Apesar da moda irritante, Artemis não trabalhava com pasta americana.

Olhei para o fundo da cozinha e vi duas sacas enormes, eram as castanhas frescas.

Todos usavam touca, menos eu. Sentei em um dos bancos da mesa, fiquei um pouco constrangida e prendi o cabelo discretamente com uma caneta que peguei na bolsa. Sem saber se era suficiente ou se poderia ficar ali, tentei ser simpática e perguntei se queriam ajuda. A única coisa que eu sabia, era que não sairia daquela cozinha por nada.

- Tu queres um pedaço de bolo? O pimentão vai demorar. 

*

Em um dos meus aniversários, estava um bom tempo sem falar com a minha mãe. Eu nem apareci em casa. Artemis fez um bolo redondinho pra mim, era inteiro de chocolate. Em um dos aniversários do Rodrigo, me chamou de filha e disse umas coisas bem bonitas pra minha mãe, num contexto que claramente não cabia um mini discurso. Não sei o que passou na cabeça dela, pois nunca havia mencionado da minha treta com a dona Rosa, mas desconfiei do que havia passado na cabeça da minha mãe quando ouviu a Artemis.

Olhos destreinados poderiam ter a impressão equivocada sobre ela. É de poucos amigos, enxuta nas palavras, possui um senso forte de justiça e sofre de sincericídio agudo. Tem uma devoção pelos filhos, pais e irmãos que impressiona. Parece que não vive para si, vive para o outro. Rodrigo tinha o prazer de fazê-la rir a todo instante e enchê-la de orgulho, era seu braço direito, era o Esteban de Manuela. Cozinha toda hora, cozinha como se não houvesse amanhã, e não há especialista que se sobreponha ao conhecimento que essa mulher tem sobre os alimentos. É como se arrancasse um pedacinho de si e colocasse em cada prato que faz.

Hoje me vejo uma apaixonada por confeiteiras, cozinheiras. As mais ranzinzas são as melhores, me parece que quanto maior a dor, mais saboroso o prato... que grande mistério esse.

*

No aniversário da Marília, uma das sobreviventes à mim, ela comemorou com o bolo mais famoso da cidade.

Depois dos parabéns e de todo o frisson pós discurso, esperei a sala esvaziar e fiquei arrudiando a mesa... enrolei o máximo que pude, fui no brigadeiro primeiro. Percebi que ninguém tinha tirado minha parte favorita, peguei a faca e cortei um pedacinho bem pequenininho, aquele cantinho do quadrado, o que tem mais cobertura e castanha. Senti falta do papel alumínio grudando e comi. Desceu que nem pedra na minha garganta.

*

Dia 28 de outubro fez quatro anos e eu estava aqui.
Parece que faz tanto tempo e parece que foi ontem.

Ele era louco pra conhecer Nova Iorque e levar a Bruna na Disney. Sempre achei ridículo e vivia falando que Estados Unidos é coisa de gente brega e consumista.

Aposto que ele adoraria estar perambulando por aqui, que nem eu.

Antes de viajar, fui assistir uma peça de teatro maravilhosa indicada pelo Luiz Davi, se chama "Deitar o sal". As vezes a gente esquece como o ser humano pode ser incrível, que espetáculo!

Elas estavam lá, grudadinhas. Bruna de cabelo curtinho, Artemis com toda a dor do mundo.

Respirei fundo, preparei meu melhor sorriso, meu melhor abraço.

*

Nem sei como sobrevivi, mas sobrevivi.


quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Supostamente um beijinho no Alley

Quase todos os dias eu passo por essa rua quando volto pra casa.

A primeira vez que passei, à noite, senti cheiro de leite recém fervido... imaginei alguém tomando uma canequinha antes de dormir... olhei de onde vinha... não achei uma janela, só um corredor esquisito onde costumam colocar o lixo e os postes/fios de luz... fica tudo escondido numa espécie de beco que tem nome de "alley". Era de lá que saía o vaporzinho do desejo e algumas especiarias, certeza. Quis fazer o mesmo, mas lembrei do meu nariz escorrendo e pensei que o chá da mangarataia teria um efeito melhor na manhã seguinte. Assim o fiz.

Na semana que passou, senti outros ingredientes vindo da direção do tal do alley, fiquei tentando imaginar o que era, parecia baunilha, açúcar, manteiga... ovo? talvez ovo... na certa era recheio de alguma coisa, talvez de bolo, ou daquelas bombas de padaria sempre muito mal feitas... Procurei janela, porta... seria uma padaria? não é possível! sem placa? Será que é escondida? Talvez não tenha licença pra funcionar... vai saber... passei e fiquei pirando no cheiro de novo... era quase sólido... de tão bom. Me senti compartilhando um segredo... fui dormir com a certeza que havia descoberto algo.

Hoje, quando saí da pink line, fiquei esperando a minha surpresinha diária... aquele docinho vaporizado estaria lá e hoje não daria trégua: you're mine! pensei. Chutei que poderia ser uma casa que vende bolos. Não era possível que aquela nuvenzinha de amor teria um horário tão sincronizado com o meu.

Era beijinho, tinha todos os elementos pra ser... dei três passos pra frente e voltei... tinha uma porta semi aberta pela primeira vez, a de madeira não estava lá, apesar de uma outra de tela. Meti a cara. Parecia uma espécie de depósito, armazém, não era uma casa-casa sabe? tinha umas prateleiras com várias coisas que eu não conseguia enxergar com a pouca luz... Aproveitei a pouca coragem que ainda restava e falei:

- Hola! Buenas noches! 

Apareceu um senhorzinho, de camisa azul e boné branco, parecia estar trabalhando até aquela hora... Antes dele me cumprimentar ou me botar pra fora pelo abuso, eu completei com o meu portunhol venezuelano: es una panadería?

Ele sorriu generosamente com os poucos dentes que tinha, balançou a cabeça dizendo que não:

- As ocho, mañana

Nem acreditei no suspense, ri por dentro.
It's a date! pensei.
Genial!  
E agora? esperar até amanhã pra saber o que era.
No entanto, o desespero curiosístico tomou conta de mim.
Antes de me despedir, dei um tiro a queima roupa: o que abre a las ocho?

- Hacemos dulces.
- Gracias señor!

Mas afinal, o que abre a las ocho? Eu sei lá o que abre a las ocho! A minha pergunta foi sutilmente ignorada por quem não se permitiu ser vítima da minha classificação arbitrária. Bem feito pra mim! 

Só sei que uma lágrima caiu nesse instante. Amanhã saberemos quem são essas belezinhas  <3



Foto: A parte iluminada, ou melhor, de onde sai a luz que atravessa a calçada até a rua, é o alley. O meu objeto de curiosidade e desejo está indicado discretamente com essa plaquinha azul, ao fundo. Vocês não conseguem ver, mas é uma placa de telefone. Acabei de perceber que dá pra ver a porta aberta! haha :D ai que delícia!!! las ocho mañana :3 vou chorar! hahahahahh



thiago pethit - nightwalker






quarta-feira, 9 de novembro de 2016

I have a nightmare*...

Martin Luther King, Jr. I have a dream* speech

No dia 08 de novembro de 2016, durante minha aula de inglês, houve a votação presidencial dos Estados Unidos. A disputa foi entre Hillary Clinton e Donald Trump. Professora Helena entregou um jornal impresso News for you, para cada um de nós, os alunos. A manchete principal era Clinton vs. Trump: Where They Stand on the Issues

O plano de aula era que discutíssemos sobre o conteúdo após a leitura. A descrição dos candidatos era a seguinte:

Clinton has been working in politics most of her adult life. She was first lady of Arkansas when her husband was governor of the state. She was first lady of the U.S. when Bill Clinton served as a U.S. senator from New York. Her most recent role was as the nation's secretary of state. That was during President Barack Obama's first term. 

Trump is not a politician. He is a New York businessman. He owns hotels, clubs, and buildings around the word. He also was on a TV reality show. He says business skills will make our government work better. He says they also will help him  work with world leaders. 

O texto do jornal seguia com os seguintes tópicos: The U.S. and the World; Trade; The Economy; Health Care; Education




Recentemente, um time de basebol, esporte muito popular entre os americanos do norte, ganhou um campeonato "mundial" após 108 anos de amargura. O Chicago Cubs venceu o World Series. Na época do Haloween, foi impossível sair de casa porque a cidade simplesmente parou durante a partida final. 

Agora vamos brincar do jogo dos sete erros. O significado de World Series, ao pé da letra, é "Séries Mundiais" certo? certo. Conversando com alguns nativos, me explicaram que o jogo é disputado entre os campeões da Liga Nacional e da Liga Americana. 

De acordo com o meu jogo de tabuleiro favorito, War: o jogo da estratégia, aprendi que o mundo está geopoliticamente dividido em seis continentes: Oceania, África, Ásia, América do Sul, América do Norte e Europa, com vários países em cada um deles. Alguns classificam o mundo em sete continentes [Antártida]. Pra encerrar essa discussão, uma pessoa sensata escreveu que "não existe uma única forma de fixar o número de continentes e depende de cada área cultural determinar se duas grandes massas de terra unidas formam um ou dois continentes". 

Um saudoso beijinho na minha comadre Mara que amava chacoalhar a porra do
mundo quando estava perdendo! hahaahahah quem nunca?

War da minha infância

Certo dia, papai apareceu com esse jogo para aquele bando de meninas ávidas por novidade e uma boa arenga. Inicialmente, eles [papai e mamãe] leram o manual, explicaram pra mim e Lissinha [Julinha nem era nascida] e jogamos a primeira partida juntos. Havia também, umas cartinhas que você tirava e lia para que os seus objetivos fossem alcançados até o final da partida. Parecia um joguinho legal e inofensivo...  

Na manhã seguinte, eu e minha irmã espalhamos a novidade para nossos tios, tias, primas e primos. Um bando de marginais manauras que iam conquistar o mundo estava formado: Mara, Fábio, Bia, Silvis, Vivi, Waguinho, Su, Lissinha, Ítalo e eu. Queríamos sangue, ódio, arenga, baixaria. E assim o foi. Na primeira rodada, descobri que o mais estratégico era conquistar a Oceania. Era pequeno, discreto, e uma fonte inesgotável de soldados vermelhos. A Austrália ficava isolada e as duas ilhotas me permitiam ter um início estratégico pra dominar a Ásia inteira... que triunfo era esse continente amarelinho...

Os jogos começavam. Os dois dados eram lançados:

Primeira rodada: seis, seis! pensamento: vou ganhar essa caralhada toda e vou destruir o exército verde. 
Bando: sua cagada! vai já perder, nem canta vitória.

Segunda rodada: seis, cinco! pensamento: tô indo bem, se eu conquistar a América do Sul serão duas fontes de exércitos vermelhos.  
Bando: silêncio.

Terceira rodada: um, dois! pensamento: puta que pariu! FUDEU!  
Bando: KAKAKAKAKAKAKKAKA [hienas] parece que o jogo virou não é mesmo? Tem alguém com medinho aqui? [risada coletiva e estrondosa] VAI PERDER! VAI PERDER! VAI PERDER!

Eu: NÃO VOU PERDER MERDA NENHUMA, E SE EU PERDER NINGUÉM MAIS JOGA [150 decibéis]. 
Bando: VAI PERDER! VAI PERDER! VAI PERDER! [220 decibéis]
Minha irmã: VAI TODO MUNDO JOGAR SIM, PORQUE O JOGO NÃO É TEU! [250 decibéis]
Bando: CHORA! CHORA! CHORA! CHORA! CHORA! [350 decibéis]

Eu: silêncio, sangue nos olhos, fogo nas ventas, uma lágrima de sangue escorreu: ninguém viu.

Quarta rodada: um, um! 
Bando: A BANANA PERDEU!!!!! [RISADA COLETIVA E HISTÉRICA] CHORA! CHORA! CHORA! CHORA! CHORA! [400 decibéis]
Eu: Tudo bem gente, é normal perder, isso é um jogo  [23 decibéis]. Levantei com a delicadeza de uma princesa que caga bolinhas de brigadeiro. Puxei o tabuleiro, todos os soldados caíram e saí correndo, chorando e gritando:

EU ODEIO VOCÊS! NUNCA MAIS BRINCO COM VOCÊS, ESSE JOGO É UMA BOSTA, ODEIO, ODEIO, ODEIO!!!! VOCÊS NÃO PRESTAM, TENHO NOJO DE VOCÊS!!!! [450 decibéis]

Depois de assistir Glub glub, O chaves e o Mundo de Beakman, por umas duas horas na casa da vovó Ana [longe do território sanguinário], voltava onde as hienas estavam e dizia com a fineza de um bode: QUERO BRINCAR, AFASTA PRA EU SENTAR AÍ AGORA! [250 decibéis] 

Glub, Glub

Bando: Tá preparada pra perder de novo banana arengueira? 
Todos riam, inclusive eu: Até parece que eu vou perder pra vocês!
Bando: Espera essa rodada terminar que tu tá muito abusada, aprende com quem sabe.

Simples <3

Muitas amizades são desfeitas durante um tradicional jogo de WAR, porém o importante é que se reate a amizade depois do jogo. Muitas alianças também são criadas durante o jogo, buscando benefício para os próprios aliançados, mas logo depois são desfeitas (sem aviso prévio) normalmente pelo que está mais forte o que gera novamente a "desfazedura" das amizades." 

O terremoto é a última estratégia utilizada por jogadores que já não se veem mais em condições de vencer, ou quando se sentem injustiçados perante seus adversários. Tal jogada consiste em simular no tabuleiro um terremoto real, agitado-o o mais rápido que puder, causando efeitos catastróficos irreversíveis. É um movimento tão fatal que, em 99,83% dos casos implica em um final trágico para a partida. Apesar de seu grande poder de destruição, tal movimento apresenta alguns efeitos colaterais. [Fonte: desciclopédia]

*

Esta brincadeira nada inocente, é um fato trágico e real nesta terra que vos falo [e em outras também, inclusive o Brasil. Explorar o outro e manipular países não é uma exclusividade... ao que tudo indica]. O fato, é que o mundo não é um punhado de estados norte americanos, como este campeonato de baseball teima em afirmar. O mais bizarro ainda, pra corroborar com toda essa doidice, é existir um documento que se chama Alien registration card, uma espécie de green card temporário que te dá direito à "cidadania" e uma cambada de direitos mínimos. ALIEN! 

Não nos surpreendemos. O que impressiona é a naturalidade com o que a "política externa" norte americana vem falando e agindo sobre outros países, tal como no jogo de tabuleiro da década de 90, como se de fato fossem outros mundos, no sentido pejorativo. Voltemos ao jornal do be-a-bá: 

Clinton prefers diplomacy (dihPLOH-muh-see) [ahãm, quem não te conhece que te compre]. That means talking and creating partnerships with other nations. She thinks it is a good tool that reduces the chance of war. 

Trump wants to think about America first. That means partnerships would only be created if the U.S. gets the most benefit. Their different views could affect the fight against the Islamic State. They could also affect relationships with China and Russia. 

Alguém avisa que isso não é nenhuma novidade? Que ridículo... 

Helena relatou sobre as possibilidade reais de "imigrantes ilegais" serem expulsos do país, ou deportados, como seu pai o foi, de acordo com o seu próprio relato, erroneamente. Não houve nenhum pedido de desculpas ou ressarcimento pelo engano. 

Todos ouvíamos com atenção e preocupação.

Hoje, na Universidade que tenta ser a mais inclusiva e multiétnica de Chicago, o clima era de tristeza absoluta. Amigos se abraçavam, usavam o espaço da cozinha para comer, beber e discutir sobre o que aconteceu para que chegassem a este resultado, aparentemente, não esperado. 

Turma da Mônica, Maurício de Souza.

Uma das professoras, durante uma palestra marcada para as 14:30, ao tentar consolar alunos que choraram durante suas argumentações sobre a vitória de Trump, mencionou que deveríamos nos espelhar nas populações do norte do Brasil, por exemplo, nos povos indígenas do Amazonas, que sofreram e sofrem todo tipo de exploração e assédio continuados e ainda sobrevivem. 

Para além da retórica benevolente de países imperialistas, fico matutando sobre os significados de estar no olho desse furacão... 


segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Língua and violence em chicago*

* Inspirado em Borderlands/La Frontera de Glória Anzaldua: pdf do livro:)



Last week, comecei um curso de inglês. No primeiro dia, todos fomos nos apresentando com nome e país de nascimento. A professora, Helena Rickijevic, pediu para que adivinhássemos de onde ela "era". Muitos falaram Rússia, eu chutei Polônia [entendedores entenderão o motivo rs]. Ela sorriu e disse que seu pai havia nascido na Polônia, mas ela "era"da Bósnia.

Um mapinha para os perdidos que nem eu 
Espremi o meu cérebro sobre o que eu sabia da Bósnia e só veio conflito armado e guerra. Fiquei tentando imaginar o tipo de vegetação que o país de Helena tinha, as danças, as frutas, os doces e até o tipo de casa que ela cresceu. Não veio nada: só a guerra. :/

Aos poucos, as pessoas foram se apresentando: Afeganistão, Ucrânia, Equador, Kensington, México, Nepal, China, Tailândia, Chile, Gana, Romênia e eu, do Brasil. Tomada pela empolgação instantânea, fiquei imaginando um Fórum maravilhoso, no qual nós discutíamos [juntinhos e abraçados] sobre "nossos" países e toda a experiência que cada um tinha. Desde a diversidade cultural, geográfica, AS COMIDINHAS, até os conflitos "pós-coloniais" [um posicionamento crítico, não como um período no tempo] através da história de vida de cada um... não seria maravilhoso?

O que nos traz à Illinois? O prazer de andar? Ainda não sei, sem pressa.

Fiz uma busca rápida sobre a língua de cada um dos países de meus coleguinhas de classe. Vou utilizar o critério de língua oficial... no entanto, considerando que o Brasil tem aproximadamente 150 línguas indígenas não-oficiais, tente supor a diversidade linguística dos países dos meus novos amiguinhos. Este critério "oficial"é falso, pra não dizer ridículo.

Mapa Etno-Histórico de Curt Nimuendaju.
Um dos mapas mais lindos do planeta.
Aqui tem o artigo falando do mapa:
http://www.etnolinguistica.org/biblio:nimuendaju-1981-mapa


[Respirando fundo] Vou continuar, só pra dizer que não falei das flores:

Afeganistão: Pachto e Dari; 
Ucrânia: Ucraniano;
Equador: Castelhano+ línguas "ameríndias";
Kensington: Francês
México: Castelhano, são reconhecidos oficialmente 68 agrupamentos linguísticos indígenas, totalizando 364 variantes. México é AMOR!
Nepal: Bantawa, Bhojpuri, Kurux, Dumi, Kusunda, Kiranti, Marwari, Mundari, Neuari, Nepali, Tharu;
China: Aini, Altai, Baima, Calmuca, Cantonês, Cazaque, Chinesa, Coreana, Lop, Min-nan, Wenzhou, Xangainês, Evenki, Gan, Hmong, Iu mien, Kim mun, Bouyei, Cham, Dong, Hacá, Hokkien, Jingpho, Ladakhi, Iahu, Naxi, Nung, Nuosu, Putian, Sarikoli, Tai Nua, Tshangla, Wa, Zhuang, Manchu, Mandarim, Min, Bei, Nan, Mongol, Nanai, Nushu, Mon Dong, Quirguiz, Salar, Pinyin, Zhuyin, Tangut, Tártara, Tuviniana, Uigur, Usbeque, Wakhi, Wu. [QUE ARRASO!!!!]
Tailândia: Hmong, Iu Mien, Khmer, Laociana, Cham, Tai Nua, Shan;
Chile: Castelhano, Huilliche, Kawésqar, Ona, Quíchua, Rapanui;
Gana: Abron, Adele, Akan, Anyin, Dagbani, Ewe, Fanti, Ga-dangme, Haúça, Kabiyé, Dagaare, More, Twi.
Romênia: Romeno.
[fonte: wikipédia ~vergonha~ é o que tem]

O livro didático oferecido para termos aulas de inglês duas vezes por semana é esse:

Observem as pessoas que estão no livro e o que estão fazendo.
A interpretação é livre <3
Ainda na semana passada, assisti a palestra "Decolonizing the Prehistory of Island Southeast Asia and Pacific" de John Edward Terrel, num dos principais Museus de História Natural de Chicago. Pra ser bem sincera, eu não tenho certeza se poderia estar assistindo essa palestra... provavelmente não. O fato é que eu assisti por ser exibidinha e entranhada. Por considerar abominável não compartilhar o que DEVE ser compartilhado, mesmo não sabendo se posso [juridicamente falando - #vidaloka] ou não, seguimos.

*

Ainda é difícil acompanhar uma palestra inteira em inglês, inclusive os debates, sem um desespero interno de saber do que as pessoas estão balançando a cabeça, rindo, ou de compreender todo o conteúdo que foi preparado para aquele momento. Passado um tempinho de pânico, lembrei das aulas e palestras que assisti na minha própria língua materna e da quantidade de vezes que não entendia bulhufas... ri sozinha e me acalmei.

John Terrell falava sobre a quantidade de línguas existentes num raio de 100 quilômetros quadrados naquelas ilhas maravilhosas da Western Melanésia, Polinésia [Oceania]. Eram aproximadamente uns setenta e cinco grupos linguísticos. Cada "vila" tem sua própria língua, seu próprio mundo e o fazem através de um cultural connection, segundo ele.

Do nada, um velhinho, bem velhinho, sentado na minha frente, perguntou o seguinte: porque tantas línguas diferentes não se "amalgamavam" [implorei pra Ana traduzir essa palavra pra mim rs] ou se fundiam? O botânico não parou por aí. Segundo ele, diversos estudos da sociologia biológica [oi?] afirmavam que na história mundial, as pequenas tribos foram se expandindo para grandes comunidades, naturalmente, e uniformizaram sua língua. Então, porque essas vilas não se amalgamavam?

Imaginei se a família Lima Barreto da etnia Tukano, do rio Tiquié, [Alto Rio Negro-Amazonas], teria a mesma opinião sobre o "naturalmente". Fiquei me perguntando o que leva a pessoa a ignorar os processos de violência que fazem parte de uma homogenização ou imposição de uma língua.

John respondeu: What's the pay off?
Ele ficou puto, alguns riram de canto de boca, ficou por isso mesmo e acabou a palestra.

Sério? Nojo de imaginar que o mundo inteiro vai falar esse dialetozinho mequetrefe. 

*

Difícil engolir a bosta desse inglês viu?

Ain't got no, I got life - Nina Simone


Ain't got no, I got life

Ain't got no home, ain't got no shoes
Ain't got no money, ain't got no class
Ain't got no skirts, ain't got no sweaters
Ain't got no perfume, ain't got no love
Ain't got no faith

Ain't got no culture
Ain't got no mother, ain't got no father
Ain't got no brother, ain't got no children
Ain't got no aunts, ain't got no uncles
Ain't got no love, ain't got no mind

Ain't got no country, ain't got no schooling
Ain't got no friends, ain't got no nothing
Ain't got no water, ain't got no air
Ain't got no smokes, ain't got no chicken

Ain't got no
Ain't got no water
Ain't got no love
Ain't got no air
Ain't got no God
Ain't got no wine
Ain't got no money
Ain't got no faith
Ain't got no God
Ain't got no love

Then what have I got
Why am I alive anyway?
Yeah, hell
What have I got
Nobody can take away

I got my hair, got my head
Got my brains, got my ears
Got my eyes, got my nose
Got my mouth
I got my
I got myself

I got my arms, got my hands
Got my fingers, got my legs
Got my feet, got my toes
Got my liver
Got my blood

I've got life
I've got lives

I've got headaches, and toothaches
And bad times too like you

I got my hair, got my head
Got my brains, got my ears
Got my eyes, got my nose
Got my mouth
I got my smile

I got my tongue, got my chin
Got my neck, got my boobs
Got my heart, got my soul
Got my back
I got my sex

I got my arms, got my hands
Got my fingers, got my legs
Got my feet, got my toes
Got my liver
Got my blood

I've got life
I've got my freedom
Ohhh
I've got life!


domingo, 16 de outubro de 2016

Brasil e Egito

Hoje falaremos de projetos que já apontavam para relações internacionais entre o Brasil e a República Árabe do Egito, esse país lindo, que só faz gente linda. Percebam as características artísticas dos efeitos especiais desta obra atemporal "Essa é a mistura do Brasil com o Egito" ou "A dança do ventre". Assim como a empatia com a cultura local que o grupo artístico, avant-garde, nos faz sentir com a sua propositura.



Considerando o artigo de Marilyn-Diva  Subject or Object: Women and the Circulation of Valuables in Highlands in New Guinea, negligenciaremos, muito a contra gosto, a discussão da mulher enquanto sujeito ou objeto. Não vamos considerar a apresentação performática do homem de alcunha jacaré, pois ele não é vítima da canção, digo, não é citado nas estrofes do grupo É o tchan

Sentimento imprevisto: Marilyn errou. Não tem essa putaria de relativizar essa porra toda com exemplo lá das New Guiné não. Aqui o bagulho é claro, essa aberração é ultrajante! morte ao cuzão do califa!

Então, como eu ia dizendo, esta canção, incluindo o clipe, é uma saudação ao corpo da mulher cis e a sua forma de expressão em estado "pleno" através da dança. O estímulo provocado por esta potência, é homenageado por diversas vezes nas estrofes bem elaboradas. Este grupo, considerado Patrimônio da Cultura Brasileira, formou gerações que dispensaram ajuda psicológica-profissional no quesito pegação. A naturalidade com que estas técnicas corporais foram inseridas no seu cotidiano, dispensaram qualquer aula de C.F.B. [Ciência, Física e Biológica]. 

Tá aí gringo-land: chupa que é de uva. 


Dança do ventre, É o Tchan


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